As mudanças para A Casa do Alfaiate dão-se por definitivas.
Podem seguir o meu novo projecto aqui:
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Obrigada a todos.
O domingo é, para mim, um dia detestável. É o dia da ida, o dia em que não consigo aproveitar devido ao fantasma da ida.
O problema é que o domingo, para mim, foi sempre detestável, mesmo antes das idas. Quando era criança, o domingo era para mim o dia da luz do ocaso, que entrava pela janela debaixo da qual eu brincava com as bonecas. Brincava triste, porque o fim-de-semana terminava.
Há já algum tempo que tenho estado para escrever sobre os readers para e-books. Primeiro, porque me suscitaram curiosidade. Depois, porque cada vez mais se fala deles, às vezes até demais, e torna-se difícil esquecê-los.
Convém explicar que a minha curiosidade sobre readers nada tem a ver com fanatismo (a favor ou contra) ou com vício em gadgets. Aliás, estou numa posição defensiva, observadora, a ver o que acontece.
Depois de muito ler sobre o assunto, e mais sobre contras do que sobre prós, descobri alguns elementos muito a favor dos readers books.
Claro que temos uma ligação especial com o papel. Eu não penso em quebrar essa ligação. Mas, se o mercado do e-reader crescer, é possível que ainda me venha a ser útil.
Vivo num sítio que não tem livrarias. Só papelarias que vendem livros: livros dos jornais, livros velhos e esquecidos que ninguém compra, um ou outro livro dos top's, livros para crianças, poucos livros didácticos, "Arlequim"... enfim... nada. Há depois o posto de turismo que vende publicações da junta de freguesia. Resumindo, nada daquela literatura que me embebeda. Não que eu seja leitora de grandes e difíceis obras (fui incapaz de ler "Em busca do tempo perdido", o famoso livro das madalenas). Mas há uns quantos clássicos imperdíveis que me embriagaram.
Como às vezes gosto de experimentar coisas novas (ler um escritor que não conheço assim como provar uma nova gastronomia), a biblioteca não me serve, visto que as novidades custam a lá chegar e, naturalmente, a minha lista de novidades é diferente. Até porque a biblioteca deve adquirir livros que agradem às pessoas e não só a mim.
Aqui perto não há muitas livrarias. Em Beja hás duas que têm pouco mais variedade que o Continente. A Fnac do Algarve também anda pela mesma onda, sendo que me espantei na minha última visita quando vi a secção dos livros de prosa /ficção reduzida. Aliás, nessa visita não encontrei um único livro da minha lista, tendo curiosamente encontrado exemplares da 365, naturalmente perdidos a Sul.
Vocês vão agora atirar-me o argumento de Lisboa, mas enganam-se. FNAC's é para esquecer, Bertrand's também, e as minhas visitas de médico a Lisboa não me permitem visitar outros recantos que, para dizer a verdade, têm o seu fim nas mãos dos grandes grupos económicos... que já chegaram aos livros e à literatura.
É triste que uma leitora mediana se veja assim. O que me vale? A internet. Mas sem contar nada ao meu avô, que ele não gosta.
Eu tenho uma mania muito infeliz: experimentar livros. Quando não gosto deles, e acho que deveria de gostar, insisto em lê-los. Acontece que esses livros se acumulam na minha mesinha de cabeceira, com poucas páginas lidas, sem que me apeteça continuar. A pilha em cima da minha mesinha de cabeceira está cada vez maior. Raramente os tento voltar a ler, e quando tento, depressa desisto novamente. Contudo, tê-los na mesinha de cabeceira faz-me acreditar que um dia os irei ler.
O pior que acontece é que tal me impede de ler livros novos. Porque me sinto culpada de os ler sem ler os outros, porque me proíbo de ler outros livros enquanto não acabar aqueles, e porque temo que a pilha de livros na mesinha de cabeceira aumente de novo.
Recentemente cheguei à conclusão que se trata de uma atitude ridícula. O pouco tempo que tenho livre para ler, e que partilho com a escrita e o piano, tem de me dar prazer e não obrigação. Vou acabar com a pilha de livros que me impede de ler. E assumir de uma vez por todas, que apesar de ser licenciada em Línguas e de ser professora de Língua Portuguesa, que não tenho obrigação de ler... secas... Que sou uma leitura de livros médios, e de alguns bons, mas não de todos.
Digam o que disserem. Há tantos livros e tão pouco tempo, que tenho de ler os que gosto.
A poesia tem-me soado aos ouvidos. Tem marcado encontros comigo. Bate-me à porta e diz-me: pega em mim; lê-me; ensina-me.
Então tenho pensado em poesia. Quando o sol bate num vidro com a interferência das gotas de chuva. Quando as nuvens escuras das trovoadas iluminam os verdes dos campos de inverno. Quando a meio da noite ele me dá a mão.
Descobri. A poesia faz falta. Mas não só a mim. Faz falta aos meus meninos também. Hum... vamos experimentar poesia!
Na praia gosto de ler poesia. Porque o tempo é de reflexão e não de entusiasmo. Um romance ou uma novela são longos demais para o tempo interrompido pelo som do mar, pelos gestos da areia. A imaginação é quebrada pelas caminhadas ao longo do mar, os mergulhos na água fria, o respirar do ar cheio de iodo.
Na poesia há a tranquilidade de não se ter pressa de chegar ao fim. As anáforas da leitura até convêm à leitura do poema. E depois, de corpo molhado estendido sob o sol quente, descobre-se uma palavra, um significado que ainda não tinha sido encontrado naquele poema lido já vinte vezes.
Páginas à margem, páginas à parte, negócios nem por isso, tirando comprar livros. Poesia, velas, cafés e compras fora de horas.
Ontem o feriado correu bem, e terminou da melhor maneira. O que é, definitivamente bom, visto que nas próximas duas semanas vou ter um fluxo de trabalho que nem me vai deixar dormir...
Ida a Beja, a visitar o Festival de BD deste ano, espreitar a uma performance dum encenador que nos tinham indicado (e que tínhamos-lhe também sido indicadas). Depois dos poemas lidos à luz de vela, mal sentadas no chão de tijoleira, a saber a saudade da adolescência, quando conheci esse chão, essas paredes, e os sons que invadiam a Casa da Cultura, resolvemos que, já que estávamos ali e tínhamos feitos os 40km, esperávamos mais um pouco e falávamos com o dito encenador (que aliás, não sabiamos bem quem era).
O climax da noite deu-se quando ele olhou para a minha colega e lhe disse: " Eu conheço-te! Vi-te actuar no Teatro da Trindade, e adorei o teu trabalho." A partir daí teceu-lhe elogios e incentivos para ela continuar. Sinceramente, momentos depois, fomos incapazes de repetir as palavras dele. Parecíamos transportadas em nuvens. Eu também, apesar dos elogios não terem sido para mim, partilhei a fundo a alegria da minha amiga.
Não apetecia ir para casa, claro estava. Apetecia beber um copo. Mas eu não podia, porque vim a conduzir. Fomos ao chá. Parámos perto do Pax Julia e procuramos o café-livraria do Serafim, que ouvimos dizer que era atrás do teatro. Lá encontramos. Perdemo-nos em chá e livros. Era meia-noite, e íamos de volta para o carro. Nas traseiras do teatro, passeavamos as duas, nas ruas sombrias, de saco na mão, das compras a desoras. Um sorriso nos lábios.
Daí a pouco vou receber a ordem de trabalho para as próximas duas semanas. Sinto-me com forças.
As flores têm formas muito diversas, desde pequenas flores verdes e tímidas, cujo vento lhes leva o pólen para lugares longínquos em troca da dança que com as flores tem, nas pontas dos ramos mais frágeis das árvores, às flores de grandes pétalas coloridas, que servem de esconderijo a muitos insectos: estas flores costumam deitar um doce suco que muito apraz as abelhas e os beija-flor.
Existem tantas flores, de tantas formas, cores e temperamentos diferentes que se torna impossível falar de todas elas de uma só vez. Algumas são populares, outras são desconhecidas. Mas cada qual serve o seu propósito e tem direito ao seu lugar no mundo.
Temos por exemplo as margaridas, flores simples e selvagens, que não se adaptam à vida humana: rastejantes, basta-lhes o que a natureza lhes dá. Por outro lado temos as rosas, flores dependentes, até para nascer, da mãos dos Homens: talvez por isso se tornaram vaidosas e prepotentes. Vale-lhes o facto de cheirarem bem, ou toda a gente já estaria farta delas.
Temos flores para casamentos, que é o caso das flores de laranjeira, para os funerais temos os jasmins, e até temos flores para as revoluções: os cravos. Temos flores mentirosas, que é o caso das flores da amendoeira, que têm fama de terem enganado princesas, fazendo-as acreditar que as amendoeiras estavam cobertas de neve, em vez de flores. Temos flores independentes, como o caso das papoilas, que não suportam o facto de ser colhidas. Há as flores de secura, como os cardos, que talvez por nascerem em ambiente nefasto desenvolveram mau feitio, e arranjam toda a gente. Depois há os nenúfares, que não podem ser retirados da água, sempre boiando ao sol, incomodando quem quer falar com os peixes. Por fim, não nos podemos esquecer da rosela, e de outras mais como ela, que se alimentam de insectos, pouco precisando da natureza os regar: para sobreviver basta-lhes apenas uma joaninha despreocupada.
Foto retirada de alfafocstrote